
As longas filas registradas nos últimos dias na Ponte Tancredo Neves levaram a jornalista Kelly Ferreyra, diretora do jornal argentino La Voz de Cataratas, a publicar um editorial questionando a capacidade da infraestrutura fronteiriça entre Puerto Iguazú e Foz do Iguaçu.
No texto, a autora argumenta que o aumento da circulação de turistas, trabalhadores e moradores ao longo das últimas décadas não foi acompanhado por mudanças estruturais na principal ligação terrestre entre Argentina e Brasil.
A tese central do editorial é que as filas observadas na fronteira não constituem o problema em si, mas a consequência de decisões adiadas por sucessivos governos diante de uma demanda crescente.
“Alguém deveria explicar por que continuamos entrando e saindo praticamente pelas mesmas pistas enquanto o movimento fronteiriço se multiplicou várias vezes”, escreveu.
Para Ferreyra, a região consolidou-se como um importante destino turístico internacional, impulsionado pelas Cataratas do Iguaçu e pela dinâmica econômica da tríplice fronteira, enquanto a estrutura destinada ao controle e à circulação de pessoas permaneceu essencialmente a mesma.
Um dos principais argumentos do texto é que o problema atravessou diferentes governos argentinos sem solução definitiva. A jornalista afirma que administrações nacionais, provinciais e municipais, além de legisladores e instituições, deixaram de transformar a questão em prioridade.
Segundo ela, a discussão reaparece sempre que os congestionamentos ganham visibilidade, mas desaparece da agenda pública quando o fluxo retorna à normalidade.
“Enquanto todos procuram culpados, ninguém assume uma verdade incômoda: esse problema existe há décadas e ninguém o resolveu”, afirma.
A autora também critica a transferência recorrente de responsabilidades entre diferentes esferas administrativas. No editorial, sustenta que a alegação de que a questão depende exclusivamente do governo nacional serviu, ao longo dos anos, para reduzir a pressão política por soluções estruturais.
Ferreyra argumenta que a situação atual era previsível diante do crescimento contínuo da movimentação na fronteira. Para ela, a ausência de intervenções estruturais não decorre da falta de conhecimento sobre o problema, mas da ausência de prioridade política.
“Todos viram o problema, mas resolvê-lo nunca foi prioridade”, escreveu.
O texto sustenta que projetos complexos exigem planejamento de longo prazo e investimentos permanentes, fatores que, segundo a autora, acabaram frequentemente substituídos por anúncios, promessas e medidas de curto alcance.
O editorial reconhece dificuldades enfrentadas pelos órgãos de controle de fronteira. Entre os fatores citados estão a redução do quadro de servidores em decorrência de aposentadorias e desligamentos, a crescente complexidade dos sistemas biométricos de identificação e as exigências documentais envolvidas no trânsito internacional.
Para a jornalista, porém, essas limitações ajudam a explicar a operação cotidiana da fronteira, mas não justificam por que os mesmos gargalos continuam sendo debatidos após décadas de crescimento do movimento entre os dois países.
Outro ponto abordado por Ferreyra é o papel das instituições locais, da sociedade civil e da própria imprensa. Segundo a autora, durante anos houve maior atenção aos anúncios oficiais, reuniões e promessas do que ao acompanhamento efetivo dos projetos e das soluções apresentadas para a travessia internacional.
Ela também afirma que a mobilização em torno do tema costuma perder força fora dos momentos de crise, dificultando a construção de uma pressão contínua por mudanças estruturais.
Ao concluir o editorial, a diretora do La Voz de Cataratas afirma que Puerto Iguazú não necessita de novos diagnósticos sobre o problema da fronteira, mas de decisões capazes de adequar a infraestrutura existente ao volume atual de circulação internacional entre Argentina e Brasil.